quinta-feira, 4 de setembro de 2014

SOLUÇÃO para o Ébola aparece no horizonte


Health workers in isolation ward, southern Guinea (1 April)

Enquanto o número de infetados pelo vírus do Ébola cresce na África Ocidental, especialistas continuam a procurar respostas para travar a propagação da doença que já matou cerca de 1.500 pessoas. O uso de sangue dos sobreviventes, um tratamento simples e pouco usual, é uma proposta apresentada para combater a doença. 

Teve início, esta quinta-feira, um encontro de dois dias, em Geneva, que pretende discutir os tratamentos experimentais do Ébola e quais deles devem ser considerados prioritários. O uso de sangue de sobreviventes é um assunto que faz parte da agenda do encontro dos cerca de 200 especialistas reunidos pela Organização Mundial de Saúde. 

A rede de sangue da OMS, um grupo internacional de reguladores de sangue, chamou a atenção para milhares de casos de sobreviventes de anteriores surtos do Ébola em África e que podem ser considerados fontes de sangue para o tratamento de doentes, escreve a agência Associated Press. O grupo definiu recentemente uma estratégia para o uso desta proposta. O sangue dos sobreviventes, transferido para vítimas do Ébola, deve ser considerado experimental e recomendam-se estudos. Os especialistas referem ainda a necessidade de despistar no sangue doenças como SIDA ou malária. Peter Piot, médico e diretor da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e um dos cientistas que descobriram o vírus do Ébola, diz que é fundamental avaliar a eficácia do tratamento com sangue. "Espero que este seja o último surto do Ébola em que tudo o que temos é isolamento, quarentena e cuidados de suporte para tratar os pacientes", afirma Piot, citado pela Associated Press.

Como funciona o tratamento? Especialistas dizem que o sangue dos sobreviventes pode ser recolhido e processado para vários doentes ou pode ser doado por um sobrevivente do Ébola diretamente para um infetado. A conclusão a que se chegou foi que usar anticorpos que combatam a infeção, e que estão presentes no sangue dos sobreviventes, pode ser uma solução. "Isto é algo muito simples de fazer", referiu o médico Peter Piot. 

Na África Ocidental não houve ainda tentativas organizadas de usar o sangue de sobreviventes para tratar pacientes. Contudo, o sangue de um jovem de 14 anos que sobreviveu à doença foi dado, em julho, ao médico americano Kent Brantly, a quem também foi administrada a vacina ZMapp. Em agosto, Brantly teve alta de um hospital em Atlanta, sem se saber se o sangue recebido ajudou ou não na recuperação. Até ao momento, mais de três mil pessoas ficaram infetadas com o vírus. Na semana passada, a OMS estimou que 20 mil casos fossem ainda diagnosticados antes de o surto ser controlado. 

O médico Michael Kurilla, diretor do gabinete de biodefesa dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, considera a situação infeliz mas realista. "Dá-nos a oportunidade de tentar novas terapias", disse Kurilla, acrescentando que, "enquanto não forem agressivas, porque não se deve tentar fazer alguma coisa, ajudar alguns pacientes e aprender?".Alguns cientistas acreditam que os anticorpos existentes no sangue daqueles que conseguiram ultrapassar o vírus do Ébola podem ajudar pessoas que tenham a doença. 

Esses anticorpos são produzidos pelo sistema imunitário para aniquilar corpos agressivos ao organismo como os vírus. A vantagem é que eles se mantêm na rede sanguínea para combater futuras infeções idênticas. Um problema apresentado é a variação da produção de anticorpos de pessoa para pessoa. A doação direta de sangue seria mais vantajosa em termos de rapidez e logística, mas os níveis de anticorpos no sangue devem ser medidos para avaliar a eficácia no tratamento. "Com medicamentos, podem, pelo menos, fazer-se controlos de qualidade", disse Tom Geisbert, um especialista em Ébola da Universidade do Texas. "Se se recolher sangue (dos sobreviventes) ‘às cegas’ sem ser testado, como se pode prever que resultados vai produzir?", questionou o especialista.

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